O HAITI CONTINUA DIALETICAMENTE ESTANDO E NÃO ESTANDO AQUI

poema coletivo de Anita Borgia, PedroK e Zuca Sardan




1 WA AK LARENN AK WAYÒM AK ETRANJE

   por Anita Borgia


Às vezes parece ser tudo uma questão de cheiros. Desde ontem eles começaram a vindicar todas as coisas, como antes nunca. Chegaram as compras e com elas os tomates: emanavam um odor impossível, de um jeito que vinha do fundo da memória dos meus sentidos. O aroma saiu de uma velha lembrança do mercado de San José, tomou aqueles tomates por assalto e era um cheiro tão delicioso que mordi e o tomate tinha gosto de antes em San José e me deu vontade de alguma coisa que eu não sei o que é. Então fui até a praia, para que o mar cheirasse a Olinda.

Mas o que brotou incontrolável do cheiro das águas foi Jacmel, envolvida num estouro de transparências marinhas, um sol de corais e areia grossa. O que no Haiti me tomou os sentidos para sempre é isto: objetos e espaços soltos, sem relação entre si, cada um explodindo a retina em seu particular verão de cores e formas. No Haiti tudo se torna uma questão de olho e na luz de hastes fulgurantes a cegueira vibra igualmente. Basta a distante memória para me fazer proteger os olhos com a mão e assim caminhar até o espelho de Jacmel, apenas ondulante e tão polido que a sombra das jangadas no fundo das águas tem um quê de imposição infame.  

O mar se esvai. Na luz, agora, só existe Préfète Duffaut.  Préfète Duffaut dorme sob uma bananeira, segurando os pincéis. Préfète Duffaut sonha e caminha em sonhos entre a Virgem Maria e a Rainha das Aranhas pelas ruas de uma fantástica Jacmel, até que a Rainha se eleva entre amarelos e ocres, brancos, vermelhos, negros e azuis, com seu longuíssimo véu transparente, no alto de uma esfera com a âncora de Agwé sobre o coração de Erzulie, com a espada de Ogum na mão direita e atrás de sua cabeça, como uma auréola, a teia de aranha dos espíritos. A teia cobre o Sol.

No fim da tarde luminosa, o pôr-do-sol tomou de mim Jacmel.


2 BANQUETE DO REI CRISTOPHE

   guinhol de Zuca Sardan


Rei Christophe recebe o Almirante francês pruma negociação na sua fortaleza talhada em rochedos à beira-mar. Trajado de General, num magnífico uniforme de fulgentes medalhas, Rei Christophe senta-se à mesa de jantar com o Almirante Gaston,  ladeados por altos representantes das duas partes. Segue-se o magnífico banquete. O salão é a céu aberto, e tem uma única parede altíssima, talhada na rocha, dividida ao meio  com altíssima porta, em forma de abertura que vai até o cimo. A  abertura dá prum  corredor profundo. Ao alto da parede, dos dois lados da porta, há um destacamento de soldados em fila indiana. Da porta saem agora mordomos, em belos trajes, trazendo  em salvas de prata o luxuoso banquete. A cena é iluminada por colossais archotes. Almirante Gaston, passadas as pequenas frases de cortesia, resolve entrar direto nas negociações:


ALMIRANTE - Pois, Rei Cristophe, a França vos oferece uma paz honrosa: vossa é a Ilha... e deixai à França somente o mar tenebroso. E, subsidiariamente,  a praia, onde montaremos o porto, para que nossos navios possam ancorar, e o Almirante vir vos visitar.


REI - A praia é nossa, Almirante. Não podemos ficar aprisionados em nossa própria ilha. O Doce Mar é vosso, Almirante... Mas... Só poderão aportar em minha praia barcos comerciais que venham sem escolta. E podereis vir, num barco de turismo, Almirante, me visitar...


ALMIRANTE -Teremos infelizmente então, Rei Christophe, de continuar a fratricida guerra, que será sem quartel. Espero que vosso exército seja numeroso, e vossos soldados estejam dispostos a morrer até o último homem.


REI - Pois, Almirante, ofereço-vos um pequeno exercício, para vos mostrar a determinação de meus homens. (Levanta-se e brada.) - Soldados, Marchem !!!


(Os soldados vão marchando, e caindo, da direita e da esquerda, pelo vão da porta. Os mordomos atentam pra não receber nenhum na cabeça. Rei Cristophe volta a beber tranquilamente seu vinho. O Almirante, assombrado com o espetáculo, mas procurando manter a calma, balbucia:)


ALMIRANTE - Mas, Rei Cristophe !... Perdereis assim, um batalhão ...


REI (de taça na mão) - Não faz mal, Almirante, minha reserva de soldados é disciplinada e... sua quantidade... inesgotável.


3 Ne vient pas sonner aux portes de Grace

   poema de PedroK


Ne vient pas sonner aux portes de Grace qui a logé chez Indulgence


Tous les jours je me lève et laboure 

Les champs de la culture universelle 

Je viens d’un peuple qui a descendu la montagne 

Inspiré par des chroniques arrivées on ne sait d'où 

 

Corail, cervelle, macaronix, 

Retient moi sur les bords de l’extinction! 

 

On s’est arrété un peu devant la mer 

Puis on est parti pour les grottes du désert rouge, 

Regarder la télé en se protégeant du vent 

 


 

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Zuca Sardán, Le sacrifice de Marat.

Pedrok, Rainha Aranha.